Bagagem

Na última noite que passei com mãe, ela não era mais minha mãe. Havia um distanciamento causado pelas dores e pela doença que não a deixava agir racionalmente. O jeito que ela me olhava mudou em poucas horas, como se parte das lembranças que ela tinha de mim tivessem sumido de sua memória. Ela me encarava de forma hostil por seguir as instruções das enfermeiras ou por não entender o que sua fala desconexa significava, e se recusava a ficar na cama do hospital, o que não só me deixou frustrada, mas também irritada. 

Se tinha uma pessoa capaz de encher minha barrinha de descontrole rapidamente, essa pessoa era minha mãe. Nossa última interação, como costumava ser mesmo quando estava saudável, foi áspera: ela tentando me machucar para me afastar; eu tentando devolver na mesma moeda, mas magoada demais para agir de forma lógica.

Minha madrinha chegou, depois de eu passar quase 1h implorando para que mãe comesse o jantar dela, para trocar de turno comigo no hospital. Eu não consegui conversar com mãe de forma lúcida uma última vez e ainda saí com certo ressentimento de toda a situação, me sentindo jovem demais, inútil, pequena. Me encolhi no banco do Uber enquanto ia para casa, sabendo em algum nível que não a veria viva novamente.

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Tenho uma relação um pouco estranha com tempo e não sei se isso tem muito a ver com ser autista ou se é algo meu mesmo. Não dá para confiar na minha capacidade de conectar que eu estou em um dia e que aquele dia é a data significativa que sei de cor e salteado. Ou seja, hoje é domingo, não dia 19 de março; é uma segunda-feira, não o aniversário daquela pessoa; é sábado e é apenas sábado, a não ser que eu receba um aviso no dia que me diz: "ei, quebra de rotina! Aquela data? É hoje!".

Isso quer dizer que, na prática, não pareço ser alguém que se lembra de datas ou aniversários ou feriados, porque raramente vou comemorar aquelas coisas se não olhar para o calendário. Também quer dizer, na prática, que muita gente acha que não sei o aniversário delas porque, além de não gostar de comemorar o meu, eu só via o número no calendário alguns dias depois das coisas terem passado e aí já estava com vergonha demais para enviar uma mensagem.

Daí veio a brilhante ideia há alguns anos atrás: registrar tudo o que é significativo para mim ou para as pessoas que eu gosto na minha agenda do Google, porque já uso para trabalho e seria a maneira perfeita de mostrar para elas que me lembro, sim, de quase tudo que me falam.

Hoje recebo avisos de aniversários de mães, irmãos, pets, conquistas, mortes, das próprias pessoas–e já não estou na vida de metade delas. Me lembro de tudo, sou lembrada de tudo, mas não consigo apagá-las dos avisos porque parte de mim ainda acha que um dia...

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Uma vez, preocupada com uma amiga de outro estado que estava se sentindo muito sozinha, marquei na agenda dela um dia a cada duas semanas para termos pelo menos uma hora de conversa: contar o que não estava saindo por mensagem, assistir algo juntas, trazer outras amigas em comum para fofocar, etc. O que ela quisesse fazer. O importante era oferecer companhia.

A primeira vez aconteceu, a segunda também, na terceira só as amigas vieram (ou ela saiu bem cedo; minha memória falhou aqui), da quarta em diante ela não apareceu mais.

E eu nunca soube o que aconteceu. Ela não me falou nada e nem reagiu quando retirei o convite da agenda permanentemente. Guardei minhas dúvidas e confusão com certo carinho, em um dos baús que tenho no fundo da cabeça, temendo abordar isso e terminar machucando-a ainda mais. Por mais que eu quisesse ter esse assunto bem resolvido, esse conhecimento não valia a dor dela. 

Hoje entendo que eu não era a companhia que ela queria.

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