Em defesa dos Joel Miller e das Ellie Williams de um futuro distópico

[Esse post possivelmente pode te dar spoilers sobre o que aconteceu na série e nos jogos de The Last of Us, Parte 1 e 2]

Quando termino um jogo que é muito focado em história, a primeira coisa que quero fazer é conversar com outras pessoas que tenham feito essa mesma jornada que eu pra entender como foi a experiência delas: gostou? Não gostou? Principais impressões logo que acabou? Algo mudou depois de alguns dias? Momentos favoritos? Piores momentos? É importante, por alguma razão, que eu consiga ver o que teve mais impacto, mesmo quando discordo fortemente da resolução ou do caminho do outro. 

Admito que conseguir ter essa troca é um pouco raro porque dificilmente tenho amigos que jogam as mesmas coisas que eu e em ritmo similar--preciso ter relativo controle sobre minhas emoções pra conseguir lidar com histórias mais pesadas e, vou te dizer, é difícil eu estar sobre controle das minhas emoções. Sendo assim, costumo recorrer pra segunda coisa que eu mais gosto de fazer: assistir pessoas reagindo às cenas que mais me impactaram pelo Youtube ou pela Twitch. 

Quanto terminei "The Last of Us - Parte 2", por exemplo, foram 8 meses obsessivos procurando pessoas reagindo à morte principal, ao anúncio de gravidez, à troca de ponto de vista, à entrada de um personagem transsexual, aos sinais de estresse pós-traumático, à resolução da luta, e, finalmente, à cena que marcaria o recomeço se tudo o que aconteceu não tivesse acontecido. Vi tanto vídeo que consigo recitar essas partes sem pensar muito, o que é um feito pra mim porque minha memória é extremamente seletiva.

"Ghost of Tsushima" é outro que eu ainda gostaria de ter uma conversa sincera com alguém que jogou tudo (e digo isso porque já expliquei a trama para alguns amigos só para ter com quem trocar ideia), porque ele te dá uma escolha no final e ambas as opções podem ser coerentes--só depende de como você absorveu e internalizou a personalidade de Sakai Jin: alguém que errou e que busca se redimir conforme o conceito samurai de honra no final ou alguém que cresceu além das amarras do código samurai e decidiu forjar seu próprio caminho?

Ver a indecisão no rosto dos jogadores é incrível--e parte do que me fez começar a escrever esse bololô de pensamento aqui. Embora não seja único desse tipo de narrativa, jogos que dão escolhas trazem à tona, a meu ver, duas formas de navegar: você pode decidir pelo que você acha certo ou pela jornada que você teve com o personagem, pelo que você acha que aquela pessoa escolheria. Imagino, também, que a escolha depende de vários fatores: se você já entendeu que pode ter uma imersão na história ou só se enxerga como espectador, as opções disponibilizadas, o quanto você se envolveu na trama, se já recebeu spoilers anteriormente, etc.

Mas tem um ponto disso que eu não costumo ver sendo bem discutido: ao olharmos pra uma história, principalmente para distopias ou futuros muito distantes, qual o sistema moral que a gente aplica na hora de avaliar as nossas escolhas e/ou as escolhas dos personagens?

Pegando "The Last of Us" como exemplo: terminamos o primeiro jogo e a primeira temporada com um massacre promovido por Joel a, não só uma colônia de humanos, mas a humanos que potencialmente teriam a capacidade de livrar o mundo da infecção dos Cordyceps. A série fez questão de jogar uma trilha sonora trágica em cima da cena, focando ora no rosto frio de Joel, ora nos cadáveres das pessoas desarmadas ou mortas no processo de fuga. É para ficar claro que a escolha de Joel é uma escolha terrível, que ele é o vilão daquela história--por mais que seja um vilão que aprendemos a amar e justificar ao longo da jornada do jogo.

Pessoalmente, gostei muito dessas adições em relação ao jogo, porque muita gente é dessensibilizada à violência presente na história e é uma lembrança incisiva de que gostar do Joel e da Ellie não muda o fato de que foi um massacre de seres humanos não infectados em um mundo onde a humanidade já está perdendo.

Mas.

Isso sou eu, de 2023, que não nasceu e cresceu ou teve que se reinventar em um cenário de fim do mundo. Meu ponto com isso tudo é que gosto que séries e histórias moralmente cinzas (ou explicitamente duais, mas com personagens muito carismáticos) tragam esse tipo de debate à tona. Com a minha cabeça atual, acho moralmente repreensível praticamente todas as escolhas disponíveis no último episódio da série: não é correto que levem Ellie para a cirurgia sem que ela ouça que vai morrer, não é correto que ela não tenha escolha, não seria correto que ela tivesse escolha também porque tem 14 anos (e uma forte síndrome de abandono e alguns transtornos mentais causados pela morte da sua melhor amiga/namorada e culpa por sobreviver a várias pessoas que passaram pela sua vida), não é correto que Joel não participe dessa conversa após tornar-se seu principal responsável, não é correto que Joel mate pessoas para chegar à Ellie, não é correto que ele mate o único médico que possivelmente teria conhecimento para tentar produzir uma vacina, etc. etc. etc.

Mas.

Se eu coloco tudo isso de lado e me insiro no mundo em que o Joel vive, lembrando de todas as perdas que ele teve para se tornar a pessoa que se tornou, em um mundo que dificilmente ele reconheceria mesmo que a cura fosse possível... a escolha dele ser moralmente repreensível tem tanto peso assim? Por que Joel, que já sacrificou tanto, que já acreditou tanto no que é justo, no que é correto, e foi traído nos momentos mais vulneráveis da sua vida, deveria querer restaurar a sociedade que o corrompeu dessa maneira?

Fico imaginando que o mundo parece bem menor quando você não tem como se comunicar com qualquer outra pessoa que não esteja em um curto raio de distância de você. Não me importa o que está acontecendo na borda do Canadá se eu estou em uma cidade fechada, dominada por uma força policial tirânica--minhas preocupações são próximas e imediatas.

E, dessa forma, Ellie é a coisa mais próxima de um recomeço que Joel tem em sua vida. Ellie é tangível, é real, é sua filha quase tanto quanto Sarah foi. A escala de prioridade entre ela e o restante do mundo para ele é quase impossível de medir porque Joel não sabe como está o restante do mundo e nem se a vacina vai dar certo--ele não tem conhecimento ou interesse nisso além de como Ellie seria afetada pela sua produção.

Nesse contexto, quando dada a escolha entre talvez salvar o restante do mundo e com certeza salvar sua Ellie, é tão surpreendente assim que ele, após vinte anos de pandemia onde sua sobrevivência individual vinha em primeiro lugar, escolha salvar o mundo dele?

Idem em "The Last of Us - Parte II": muito se discutiu sobre a veracidade das escolhas de Abby e de Ellie; que a agressividade e a necessidade por vingança que elas exibiam não eram tão bem pautadas porque mulheres, em geral, não sentem tanta raiva ou necessidade de responder com violência.

Sem entrar em todas as pautas sobre repressão emocional e expectativas da nossa sociedade em relação a papeis femininos, a isso eu digo: em 2023.

É complicado medir essa expressão de descontrole e esse nível de violência usando a nossa cabeça de hoje, usando o que é aceitável e esperado pelos parâmetros de uma sociedade que já está em colapso e deve terminar em chamas em até 4 anos graças ao capitalismo que ainda perdura. Se tivéssemos crescido em um mundo isolado, que te força a matar infectados e humanos (muitas vezes de forma brutal porque armas e munições são materiais escassos) para continuar vivo, onde estar em grupos é quase obrigatório para haver desenvolvimento de qualidade de vida e, consequentemente, seus laços com essas pessoas são muito mais estreitos do que seriam na atualidade... será que essas reações viscerais e obsessões com vingança não são justificadas no olhar dessas personagens?

E embora esse texto tenha se tornado, acidentalmente, uma ode a "The Last of Us", penso em linhas mais gerais mesmo: é sempre legal ter discussões sobre histórias com contextos diferentes usando a nossa lógica e nossa bússola moral, mas, a meu ver, é mais divertido ainda quando essas conversas também transcendem o aqui e o agora, o eu e você, o certo e o errado, e se torna, simplesmente, um momento de contemplação sem amarras. 

Sinto falta de ver esse tipo de coisa em espaços de discussão de séries e jogos, então vim deixar meus pensamentos desconexos por aqui mesmo pra tentar distrair da ansiedade.

Para finalizar:

┏┓
┃┃╱╲ nesta
┃╱╱╲╲ casa
╱╱╭╮╲╲ amamos
▔▏┗┛▕▔ e respeitamos
╱▔▔▔▔▔▔▔▔▔▔╲ 
personagens moralmente repreensíveis
╱╱┏┳┓╭╮┏┳┓ ╲╲ 
▔▏┗┻┛┃┃┗┻┛▕▔

Exceto a Abby. Aqui aceitamos que falem mal de Abby Anderson, apesar de tudo o que o jogo tentou me ensinar.

Comentários

  1. Miga, vou jogar aqui meus 2 centavos sobre TLOU, mas só vi a série mesmo (e por tabela, porque eu sou menininha e nao queria ter visto série de fim de mundo e zumbi, mas marido assistiu e eu vi junto):
    eu fiquei pensando muito nisso. ficamos eu e Lucas conversando sobre o que fazer sobre quando o mundo vira o caos e falhamos em encontrar resposta: aqui, em 2023 dC, a gente preza muito a liberdade individual, mas quando o mundo é tomado por um fungo do demonio, nao é mesmo mais sensato em certa medida se render a algum tipo de ditadura que vai nos manter em seguranca? sei que o Freud tem uma citacao que é algo como "antes da civilizacao a liberdade era irrestrita, mas nao valia de nada pq o homem nao tinha como defender nem usufruir dela".
    E nessa perspectiva o Joel é certamente vilao, mas eu só to pensando nisso agora, porque é impossível ver isso na série. Meu deus, o afeto que ele tem por aquela menina, acho que é impensavel pra mim nao acreditar que eu faria o mesmo.
    Não joguei o jogo mas fui ler o resumo da historia da parte 2 na internet e eu nem quero ver nada pq olha: MUITO TRISTE

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    1. Manu, sinto muito que cê tenha sido submetida a TLOU se você não gosta de zumbi (e não assiste mesmo a segunda temporada porque já prometeram que vai ter mais). Se um dia cê quiser falar sobre isso, eu diferencio bastante os infectados do jogo/série do que a gente costuma chamar de zumbi e isso humaniza muito a história pra mim.

      Sobre a discussão que vocês tiveram: minha cabeça de hoje só me faz pensar o oposto. Se você tá em um mundo que pode ruir a qualquer momento, sob uma ditadura que não necessariamente preza pelo seu bem estar e que também te restringe abusa usando essa mesma justificativa, vale a pena viver? Até a Ellie, não tinha sequer um resquício de esperança pra volta da sociedade da forma que a gente conhece ela--era caos e violência e morte, dentro e fora dessas paredes. Se existir nesse mundo automaticamente te coloca em contato com tudo isso, não vale, pelo menos, ter a liberdade de procurar outros grupos ou de viver seus últimos anos de forma irrestrita? Faz sentido ficar em uma situação de quase-fome e abuso de autoridade certa sendo que nem assim há garantia que vocês vão sobreviver?

      O Joel é um vilão pras outras pessoas, com certeza, porque ele escolhe o individual acima do coletivo; mas, dentro da história dele, isso não faz diferença (penso eu) porque ele já tá condenado. Ele já não tem o que perder. Se ele pode conseguir viver mais alguns anos com seu novo propósito de vida (Ellie), por que não tentar?

      Sobre o segundo jogo (e possivelmente segunda e terceira temporada), se você conseguir, dê uma chance. A gente vê um arco muito parecido com o do Joel e consegue explorar motivações e a natureza humana em outros contextos também. Uma coisa que é "legal" é que, enquanto "quem importa" sobreviveu à primeira temporada, o tom desse fim sempre foi amargo pra mim; o segundo jogo, apesar de tudo o que acontece, nos deixa num canvas branco, com as resoluções que precisavam acontecer pra trás e a estrada à frente. De certa forma, é quase um fim de esperança.

      ACHO QUE DÁ PRA PERCEBER QUE EU GOSTO MUITO DESSA HISTÓRIA

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    2. feliz que vc descobriu que sou eu mesma, as vezes dá pau no meu navegador e ele nao comenta logado pela minha conta do google, e eu só vou ver depois. jogando a aura de pavoa misteriosa kakakaka
      entao, menina. Faz sentido ficar numa situação de abuso pra ter uma meia vida? Eu acho que eu ficaria, pq eu sou covarde, mas vc tem razao. Eu tento pensar como é que eu pensaria nesse cenário apocaliptico e nao consigo, pq parece que essas regras morais todas ficam frágeis demais pra valer nesse contexto.
      O Joel, sei lá, eu não consigo não amá-lo mesmo ele descendo o cacete na galera, acho que fiquei muito tocada pelo vínculo que ele cria com a Ellie. Será que é isso que vale a pena, é por isso que vale a pena abandonar a segurança nesse contexto parcial? pelo ~AMOR? KKKKKKK (ai de mim, que sou romantica)
      eu infelizmente acho que nao estou a altura de discutir TLOU com voce, mas entendo de onde vem tanta empolgacao, eu assisti sem nem querer e já to aqui refletindo sobre mil coisas. Baita historia MESMO, já surgem vários pensamentozinhos psicanaliticos aqui, e um monte de questoes sem resposta. historia boa é a que poe a gente pra conversar sobre!

      :**

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