jardim sem sol
Quando a cabecinha está ruim, como está hoje, ela conjura uma noite, em 2019 ou 2020, com uma pessoa que eu já conheci. Nessa conversa, há uma afirmação quase categórica de que só se coloca energia em quem se quer verdadeiramente manter por perto. Talvez para minha audiência imaginária aqui do blog, isso faça sentido imediato; talvez seja assim mesmo para a maioria das pessoas: se não te traz alegria, jogue fora. (E talvez essa última parte se aplique mais a coisas e lixo; não saberia dizer, não assisti o documentário da Marie Kondo. Mas acho que, no fim, o resultado é o mesmo.)
A questão é que, embora eu tenha aquiescido naquele momento, as sementes desse papo ficaram comigo. Tenho muita dificuldade com verdades universais, a ponto de ter medo, até, de ser uma pessoa excessivamente neutra: eu responderia tudo com "depende" se fosse algo viável, exploraria todas as possibilidades em discussão se me dessem o tempo. Então encarar a possibilidade de que as pessoas tomavam decisões, todos os dias, de quem manter na vida delas me pareceu gigante demais para digerir naquele momento; de certa maneira, ainda não sei como engolir isso.
Quando comecei a terapia com minha atual psicóloga, eu frequentemente usava plantas para explicar como me sentia; como eu era um cacto no meio de suculentas, jiboias, orquídeas, samambaias; como eu exigia muito menos água que as outras, sendo, inclusive, afogada quando tentavam me dar mais do que suporto. Mas, ao mesmo tempo, carregando uma reserva enorme para quem precisasse--desde que essa pessoa não fosse eu. A água, na minha cabeça, era afeto, atenção--algum tipo de sustância que pessoas médias precisam para crescer e se desenvolver. Já eu era de "baixa manutenção", então não precisava ser tratada da mesma maneira para sobreviver, qualquer pouco me deixava feliz.
Com o passar do tempo, a comparação foi desaparecendo das nossas sessões, mas olhar para as pessoas como plantinhas virou uma mania, porque frequentemente penso que estou cultivando alguma coisa quando interajo com elas. É algo que precisa ter alguma constância, como regar uma planta geralmente exige, com períodos de manutenção; a mudança de tempos afeta as plantas mais sensíveis de forma profunda, mas pode passar despercebida para as mais arreigadas. Em suma, na minha cabecinha, tenho um jardim e é responsabilidade minha mantê-lo. Se ele vai se expandir ou diminuir, florescer ou pegar fogo, ter espécimes comuns ou mais estranhos, depende do que eu faço com ele.
(Essa não é a hora de perguntar o estado atual do meu jardim de pessoas. Seguimos.)
Vira e mexe a conversa com aquela pessoa volta, e eu olho pro que tenho cultivado. Sou alguém de pouca energia, que lida de forma crônica com depressão e outros problemas que agravam o quanto posso me disponibilizar para as coisas. Toda gotinha de tempo, energia, carinho, pensamento... me custa muito. Me faz falta. Nem sempre parece, porque também tenho bastante dificuldade em deixar minimamente evidente o quanto as coisas me afetam, mas espremo tudo o que tenho de mim diariamente--às vezes oferecendo mais do que posso e ficando prostrada por semanas. Toda sementinha de interação que planto é calculada, é uma esperança de algo que eu quero fortemente que sobreviva e floresça; toda pessoa-planta que alimento é um pedaço significativo de mim porque já faz alguns anos que a minha bateria não volta ao 100% cada vez que eu me doo a algo ou alguém. Separar um momento para alguém é conscientemente deixar menos de mim em prol de quem me importa.
Acho que quando a pessoa me disse que colocava energia em manter quem ela queria por perto, comecei a entender que nem todo mundo olhava para relações da mesma forma que eu. Acho que também deveria ter tomado como aviso: em algum momento, a próxima a ser podada seria eu. Não só por ela, inclusive; por outras que também seguem esse mesmo princípio. Mas, pra mim, escolher dar um pouco de mim--um pouco que é muito de mim--é um ato de amor. Por mais que eu não consiga ser torrencial com esse amor, que não consiga ser frequente por vezes, que não consiga sempre entender quando alguém precisa de mais do que eu dispus, todas as pessoas que estão no meu jardim são igualmente importantes. Mesmo quando elas param de reciprocar.
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